Entrevistas



Publicada em: 17/09/2010
Percival de Souza: 40 anos dedicados à verdade



Ele foi perseguido e ameaçado de morte diversas vezes, é autor de mais de 16 livros e tem 40 anos de jornalismo, sendo grande parte dele vividos no jornalismo policial. Especialista em segurança e criminologia, ganhador de quatro prêmios Esso por suas reportagens, Percival de Souza fala, em entrevista exclusiva ao Momento Online, sobre suas experiências, ideias, começo de carreira e como foi viver momentos impactantes na casa de detenção, onde situações acabaram se tornando parte de um de seus muitos livros.

Natural de Braúna (SP), Percival conta que teve uma infância difícil e problemática e que de longe sonhava um dia em ser jornalista: “Eu era um garoto problemático e trabalhava em uma agência de turismo. Meus pais, para evitarem o pior, tiraram-me desse emprego e eu fui trabalhar como contínuo em uma redação”.

 "Perci", como é conhecido pelos amigos, aos 14 anos foi trabalhar na redação da Folha de S. Paulo, e conheceu diversos nomes do jornalismo impresso, entre eles: José Hamilton Ribeiro, José Carlos Varão, e Enio Pesci. “Será que um dia eu serei como esses caras?”, pensava.

Por intermédio de José Hamilton, Percival foi apresentado à outra lenda do jornalismo, Mino Carta, que acabara de fundar a revista Quatro Rodas. “Mino! Quero te apresentar este rapaz, ele é bom, sabe escrever e tem talento. Dá uma chance para ele -  e assim começou a minha carreira na revista Quatro Rodas”, recorda.

Percival lembra e faz questão de frisar que, na área criminal e de segurança, é proibido ser ingênuo e que o “feeling”, o sexto sentido propriamente dito, ajuda muito e pode tornar-se uma grande matéria. “Há episódios que você não tem domínio e não tem controle sobre suas emoções, elas afloram como flores em primavera, porque quando as pessoas me veem na televisão não tem ideia do que eu fiz para ter condições de apresentar uma sinopse ou um acréscimo sobre determinado fato marcante que comove uma nação” relata.

Ao ser perguntado sobre seu triunfo nos quatro prêmios Esso ganhos durante sua carreira, ele relata que seu empenho e aplicação foram fatores-chave para o seu sucesso, mas que não esperava ser reconhecido em âmbito nacional. Em uma de suas muitas experiências, o jornalista conta que, após vários dias de visitas ao sistema carcerário do Carandiru, onde procurava situações para escrever mais um de seus livros, notou que todos os dias a mãe de um detento, após a visita, rodeava o complexo e procurava a melhor posição para acenar para seu filho mandando beijos carinhosos; tal situação foi citada por Percival em uma de suas muitas palestras, e tocou profundamente a todos ouvintes. No outro dia, na redação onde trabalhava, teve uma surpresa: havia um pacote escrito "fiquei muito comovida com sua palestra e decidi enviar algo para aquela mãe" - era um binóculo.

“Tal situação acabou por se tornar parte integrante de um dos meus livros” confessa. Ainda no assunto livros, Percival relata que em um de seus livros "Autópsia do Medo" foi dedicado cerca de dois anos inteiros de sua vida para a elaboração do mesmo e que seu conteúdo analisa a ditadura militar, biografando um lado e apresenta os bastidores do sistema. “Para a elaboração deste livro foram feitas cerca de 120 entrevistas e tudo que eu consegui aprender ao longo de minha carreira eu apliquei nele” conta.

O jornalista ainda desfere um último comentário a respeito da lei que regulamenta a não obrigatoriedade do diploma de jornalismo, afirmando que o jornalista é e sempre será alvo de governos, e que tal lei apenas favorece o enfraquecimento da classe, pois, segundo ele, jornalista tem que ter faculdade, tem que saber escrever e isso não se aprende apenas seguindo opiniões e conselhos. “A política partidária através da militância significa a morte do jornalista, a classe tem que ser independente e isenta de atrações políticas e ideológicas” finaliza.

REDAÇÃO
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