
A timidez sempre foi um peso na minha vida. A dificuldade de olhar nos olhos das pessoas. De encarar alguém na rua. De ler um texto em voz alta. Falar em público, nem pensar.
A arte de fazer amizades nunca foi o meu forte.
Sempre sério, centrado, me considero egocêntrico. Ainda criança já eram explícitos tais adjetivos.
Criança. Ufa! Ainda bem, eu era apenas uma criança. Mas adianto a todos que o aconteceu carrego comigo até hoje, com as mesmas responsabilidades de um feito de um adulto.
O palco do episódio foi o Grupo Escolar Ivete Oliveira, a escola onde cursei o ensino fundamental na cidade de Serrinha, interior da Bahia. Aos meus 11 anos, andar desajeitado, magro, “cabeção” como era apelidado, evitava exposição, algo no meu intimo dizia: “quanto menos me exponho, menos estou sujeito a críticas ou elogios. Preferia abrir mão dos possíveis elogios e ser neutro.
Mais um dia de aula como outro qualquer, “Não! Aquele dia ficaria marcado, e como ficou”.
Cheguei à sala de aula, alguns alunos a conversar. Avistei a minha fiel escudeira e companheira. Estava lá, no canto esquerdo da sala, inerte, aquela cadeira era a “minha cadeira”. A primeira vista era uma cadeira como outra qualquer, mas tinha suas características singulares. Ainda bebê, eu me apegava a objetos. Foi assim com a chupeta e depois com a cadeira.
Mas vamos lá, não é a cadeira a protagonista da história e nem a chupeta. Bem que poderiam ser, para a minha felicidade.
Vamos ao fato. Era aula de língua portuguesa e literatura brasileira, a minha disciplina preferida. Embora devido a aquele meu problema mencionado acima, a hora mais difícil, era quanto eu tinha que ler um texto em voz alta.
No transcorrer da aula, de repente aquela voz ecoa nos meus ouvidos como um trovão, me estremece da cabeça aos pés, perfurando o meu corpo e apunhalando o meu coração.
“André Andrade, é a sua vez, venha ler o seu texto”. Exclama a professora, com sua voz aguda e estridente.
Tento falar algo, mas a voz não sai. Levanto-me cabisbaixo e com o papel nas mãos tremulas, não olho para os colegas. Sabia que naquele momento todos os olhares eram para mim. A hora mais temida. Cada olhar me perfurava como um laser.
Enfim iniciei a leitura, a timidez me causava sensações de frio e calor ao mesmo tempo, a escrita a lápis se acendia e pagava como se estivessem sido escritas em papel negro com letras florescentes.
No ápice de tanto nervosismo, a folha de papel despencou da minha mão, e no momento em que dobrei o meu corpo para apanhá-la, escapou aquele peido, que fez questão de falar “estou aqui, nasci, existo”. Desgraçado! Tinha que ser ali, naquele momento, justo comigo. Aquelas gargalhadas seguidas de dedos apontados na minha direção foram de perder o chão.
Corri para a minha cadeira no canto, peguei a minha mochila e sai da sala sem olhar para traz. Ouvi a voz da professora me chamando ao longe, seguido por aquele som de gargalhadas, que parecia uma sinfonia.
No caminho pra casa, a sensação de que todos me olhavam, na verdade não sei como cheguei em casa. Quando me dei conta estava deitado na minha cama, travado, não chorava. Sou meio durão. Só senti uma lágrima molhar o travesseiro, não estou exagerando, era apenas uma única lágrima.
Lágrima esta que mudou praticamente o meu modo de viver e pensar. Sobre quem na verdade eu era, o porquê de tanta timidez. A partir daquele dia, mudei a minha conduta. Tinha que lutar contra o meu pior inimigo.
Textos fizeram parte da minha vida a partir de então, não apenas para serem escritos, e sim, para serem lidos em voz alta, como faço até hoje, quem me conhece sabe que nunca pego um texto para ler só para mim. Tendo “platéia” ou não, as minhas leituras são sempre assim, as palavras ecoam sonoras, imperceptivelmente, a narrativa ganha vida, por esta razão que sou apaixonado pela profissão de jornalista.
