
“Tio! Me dá um trocado!” Era assim que o tristonho menino de rua murmurava na noite chuvosa.
Sob uma fina chuva e um frio intenso, enrolado num velho cobertor, o menino se recostava na mureta de uma calçada. “Foi de cortar o coração ver tudo aquilo... Me lembro como se tivesse sido ontem”, conta Kléber, um estudante de Oceanografia.
Passava um pouco das onze da noite quando Kléber e seus amigos saíram do cinema e se depararam com essa triste cena no cruzamento da Av. Paulista com a Rua Augusta.
O menino sequer tinha ânimo de sair dali para procurar um lugarzinho mais quente ao abrigo da chuva. Em seus olhos, havia lágrimas que se misturavam à chuva. E aquele olhar desanimado, que implorava por ajuda fez com que Kléber ficasse também com a visão turva.
Kléber conversou rapidamente com ele, tentando lhe dizer algumas palavras de conforto. Passou-lhe a mão em sua cabeça e disse-lhe: “Fique com Deus!” Ele já não tinha mais palavras, seu olhar já dizia tudo.
O estudante correu para alcançar seus amigos que já iam rua acima. No trajeto pensava no menino. Menino que não era malcriado, tampouco era malandro. “Ele parecia ser tão bonzinho!” Ficou na imaginação de Kleber. Dava para notar em seu semblante e no modo de falar e se comportar. “Como a vida pode ter sido tão cruel assim com uma criança como ele?”, se questionava.
Passados vários anos, Kléber continua imaginando: “que fim terá levado aquela criança?”. Kleber suspirou acreditando que talvez tenha encontrado um “anjo” com uma oportunidade de vida melhor. Talvez até tenha virado um anjo.
