TAMANHO DO TEXTO AA
Comportamento / Publicada em: 27/11/2009
Pode apostar que isto é doença
Compulsão pelo jogo é pouco conhecida e muito malvista

A sabedoria popular diz que é mais fácil ser atingido por um raio do que ganhar na Mega-Sena, e o Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe) endossa o senso comum. Enquanto a chance de um raio cair na sua cabeça é de uma em 3 milhões, acertar na Mega-Sena é muito mais difícil: uma em mais de 50 milhões.

Mas, para algumas pessoas, a estatística da razão e a voz do povo não valem sequer um minuto de adrenalina em frente ao caça-níqueis. Elas são apostadoras compulsivas, vítimas de um transtorno que, só no Brasil, afeta 4 milhões e meio de pessoas. É o mesmo que as populações somadas de Guarulhos, Campinas, São Bernardo do Campo, Osasco e Santo André. Isso sem contar os familiares. Com o envolvimento de um cônjuge e três filhos para cada apostador, estamos falando de 10% do Brasil.

O psiquiatra Hermano Tavares, o maior especialista do país em jogo patológico, responsabiliza parcialmente a imprensa pela pouca difusão do problema: “Apesar de atingir diretamente 2,5% dos brasileiros, a aposta compulsiva é praticamente desconhecida. Aparece pouco na mídia, não merece grandes coberturas e esforços de reportagem porque não tem o show da Polícia Federal invadindo”, lamenta.

O pouco conhecimento também se deve ao silêncio em que se fecham os doentes e seus familiares. Mas o estigma se deve principalmente à ignorância de que se trata de uma doença. A sociedade julga o apostador como malandro, vagabundo, irresponsável – em suma, como o culpado, não como a vítima que de fato é. O preconceito fez com que apenas em 1971 existisse uma abordagem médica para o assunto. Até então, prevaleciam análises religiosas e morais.

GB, uma representante comercial de 40 anos, passou por isso. “Comecei com 17 anos, no jogo do bicho. Na época o jogo não era reconhecido como doença, e eu nunca fui ao médico nem tomei remédio. Para todos que eram próximos de mim, e até para mim mesma, eu era sem vergonha e jogava porque queria. Fiz promessa de que não apostaria mais.” Na data da entrevista, GB se declarou orgulhosamente limpa há seis anos, três meses e onze dias.
 

Fazer uma fezinha não é doença
O que diferencia um jogador patológico de um sadio? Não é a presença de dinheiro, como se poderia pensar. Apostas em dinheiro ou em feijões, a priori, não distinguem os dois grupos. Embora o diagnóstico dependa de uma série de procedimentos médicos, há um traço específico que, quando se manifesta, pode indicar perigo: é o chasing, ou jogar para recuperar.

“Claro que ninguém gosta de perder”, diz o Dr. Hermano. “Mas se a pessoa perde e fica doida para voltar e recuperar, atenção: pode não ser compulsão, mas tampouco é uma atitude saudável. A perspectiva correta sobre o jogo de azar é a de lazer. Na conduta adequada, a pessoa gasta R$ 50 e sai dizendo, ‘gastei R$ 50 reais para minha diversão’. Para o jogador social o objetivo é se distrair, socializar. As cartas são um instrumento para estar em volta da mesa tomando um café, debatendo futebol, discutindo a novela e, no meio disso, vem ‘olha, eu bati’. Se deixou de ser lazer, deixou de ser saudável e virou uma atividade, no mínimo, perigosa.”

Em 1980, a Associação Americana de Psiquiatria elaborou um questionário de sondagem para identificar o jogador patológico. A Organização Mundial de Saúde só veio a reconhecer a doença em 1992, quando adotou o documento norte-americano. De acordo com os critérios das duas instituições, o viciado responde ‘sim’ a metade das perguntas. Na prática, a realidade pode ser ainda mais severa. No Ambulatório do Jogo Compulsivo, que o Dr. Hermano comanda no Hospital das Clínicas de São Paulo, 80% das respostas são afirmativas. O formulário, que deve ser respondido em isolamento, traz as seguintes perguntas:

1. Você se preocupa com o jogo? Relembra experiências que já teve, especula sobre resultados, planeja as novas apostas, elabora estratégias para conseguir dinheiro para jogar?
2. Sente necessidade de aumentar as apostas para alcançar a excitação desejada?
3. Faz esforços repetidos e sem sucesso para controlar, diminuir ou parar de apostar?
4. Sente inquietude ou irritabilidade quando diminui ou para de jogar?
5. O jogo é uma forma de escapar de problemas? Funciona para aliviar sentimentos de desamparo, culpa, ansiedade, depressão?
6. Quando perde dinheiro, fica obsessivo por recuperar, e continua apostando, no mesmo dia ou nos seguintes, com esse objetivo?
7. Mente para familiares, terapeuta e amigos, a fim de esconder a real extensão do seu envolvimento com o jogo?
8. Já cometeu atos ilegais como falsificação, fraude, roubo ou desfalque para financiar suas apostas?
9. Está sob ameaça ou já perdeu relacionamentos significativos, oportunidades sociais, de trabalho ou de educação em função do jogo?
10. Conta com terceiros para prover dinheiro, no intuito de aliviar a situação financeira desesperadora por causa do jogo?
 

Dependência química
A patologia da aposta é compulsiva, um transtorno do impulso. O apostador é viciado, da mesma forma que os toxicômanos. Por isso, os critérios de diagnóstico foram baseados na compulsão química. Profissionais que trabalham com vítimas de jogo são oriundos dos segmentos de álcool e drogas que migraram para esta dependência químico-comportamental. Apesar das especificidades, os eixos conceituais são os mesmos.

Em primeiro lugar, cocaína e apostas compartilham o mesmo tipo de perda do controle. Nos dois casos a quantia empenhada cresce, as horas gastas aumentam e as promessas não são cumpridas. “Vou jogar só meia hora, só R$ 10 reais, não jogo mais nesta semana” são discursos típicos.

Além disso, drogas e jogo têm em comum o ajustamento psicofisiológico pelo qual o dependente passa. A cocaína aumenta a atividade das células nervosas. O jogo, apesar de ser um estímulo não-químico, atua de forma parecida, intensificando o trabalho nervoso. Neurologicamente, o cérebro reage da mesma forma. Para se preservar, cria barreiras contra esta hiperestimulação. O mesmo estímulo passa a gerar um resultado mais fraco. O viciado, para obter a mesma excitação, precisa vencer as barreiras protetoras do cérebro a cada vez. É por isso que as doses e as apostas são sempre crescentes.

Da mesma forma, a abstinência de drogas e de jogo tem efeitos similares. Seja porque o dinheiro acabou, seja pela internação em uma clínica de tratamento, a suspensão leva a crises agudas. “O paciente se sente desconectado, desligado do ambiente. A realidade fica sem cor e sem gosto, falta alguma coisa. É nesse ponto que o jogador começa a se lembrar de como era bom jogar, a delícia do frisson, como ele se sentia bem jogando. Ele tem vontade de por ambos os dedos numa tomada 220 pra ver se a energia volta ao corpo”, descreve o Dr. Hermano.

Outras compulsões podem levar ao mesmo padrão de comportamento. Endividamento, brigas em família, perda de emprego, divórcio, desmoralização social e rejeição dos amigos estão presentes em modalidades como sexo, compras, comida. O jogador conhece todas as perdas, mas não consegue dizer ‘não’. É isso que caracteriza uma doença.
 

Pobres poderosos
Antes de reconhecer que precisa buscar ajuda, o jogador compulsivo pode viver momentos de aparente glória. Quem se vicia em jogos de azar como roleta, dados, caça-níqueis e bingo, por exemplo, se alimenta de uma suposta distinção. Ele se sente especialmente abençoado, não é como o resto dos mortais. Nessas modalidades, abundam as simpatias, mandingas e superstições, crenças e procedimentos que visam a reforçar a tal sorte de nascença. Cada vitória é uma confirmação da existência de sua boa estrela. E quem tem estrela, claro, não precisa de ajuda.

Outro perfil é o de apostadores em modalidades que exigem raciocínio, como vinte-e-um, caxeta, truco e pôquer. Sorte é importante, mas o que conta mesmo são as habilidades intelectuais. Vence o mais arguto. A auto-estima elevada e o reconhecimento dos companheiros de mesa alimentam a certeza de sua superioridade. E quem se acha superior dificilmente procura ajuda.

Os viciados em competições formam o terceiro grande grupo. Jogadores desse perfil apostam em lutadores de boxe, cavalos, corrida de cães, briga de galos e até partidas de futebol. A sorte tem uma pequena participação no resultado, o que conta é o tino, a habilidade de conhecer os competidores e calcular as chances. O melhor estrategista não acredita em ajuda.
 

Diferenças entre os sexos
Para o jogador compulsivo, qualquer razão é boa. Ele joga porque está feliz, porque está triste e porque não está sentindo nada. Joga para obter e para gastar energia, joga enquanto espera e também para matar o tempo. Acima desses traços básicos que nivelam todos os apostadores, há diferenças de gênero.

Tipicamente, mulheres apostadoras têm perfil escapista. Sofrem de ansiedade, angústia e vazio. São divorciadas ou viúvas, os filhos já saíram de casa, a carreira está garantida ou já se aposentaram. A vida está calma e o bingo da esquina é um oásis de agitação, de vitalidade, movimento. Frequentemente, jogadoras compulsivas usam antidepressivos. Seu modus operandi é apostar pouco para estender o prazer tanto quanto possível.

Homens, por outro lado, querem adrenalina, pura ação na veia. Apostam rápido, partindo logo para os níveis mais altos. Apertam freneticamente o botão turbo das máquinas. É comum que combinem jogo com álcool e tabaco. Perguntados sobre sua motivação, respondem geralmente que apostam porque têm problemas de dinheiro e jogam para pagar dívidas. Mas não se paga dívida de jogo com mais jogo. Sendo uma compulsão, as apostas são incontroláveis, e o doente não consegue parar quando ganha, saldar as dívidas e retomar sua vida.

Como é de se supor, grandes dificuldades financeiras ocorrem na vida dos apostadores patológicos. GB, a representante comercial, conta: “Não sei precisar quanto perdi na moeda da época, mas trabalhava em um banco e peguei o dinheiro que minha família toda que tinha aplicado. Quando fui descoberta pelo auditor, passei um mês desvendando cada movimentação que havia feito. O banco reembolsou todos e eu fui mandada embora por justa causa”.

Situações extremas como essa podem levar a desfechos trágicos. Nada menos que 80% dos que procuram o Amjo, do HC, consideraram seriamente o suicídio como uma possível solução. Concretamente, 20% das mulheres e 5% dos homens já fizeram pelo menos uma tentativa. Como eles são mais eficazes, o número real de mortes é superior no gênero masculino.

Do ponto de vista etário, as vítimas são cada vez mais jovens. A rede social Orkut, por exemplo, tem 22 comunidades destinadas a jogadores compulsivos, anônimos ou não. “Eu adoro jogar baralho”, grupo com mais de 4 mil membros, traz depoimentos de rapazes e moças que estiveram até 24h ininterruptas à mesa. A progressão não é homogênea. “A transformação do jogador social para o compulsivo pode variar de seis meses a 20 anos”, afirma o Dr. Hermano.
 

Falta verba também para a ajuda
O Ambulatório do Jogo Compulsivo do HC existe há oito anos. Nos períodos em que os bingos estão fechados, recebe anualmente 40 novos casos. Durante as épocas de abertura legalizada, a procura aumenta para cem casos por ano. Sobre a relação entre aumento da doença e funcionamento das casas de jogos, o Dr. Hermano pondera: “Enquanto a Abrain (Associação Brasileira dos Bingos) alega que o fechamento dos bingos ameaça 320 mil empregos diretos e indiretos, pouco se divulga a respeito da massa de freqüentadores de bingo que joga compulsivamente”.

Em seu laboratório, o trabalho é voluntário e realizado por sete psicólogos e psiquiatras, que estudam a aplicação de um tratamento que equilibre complexidade, eficácia e custo. O Amjo já desenvolveu dois manuais de esclarecimento da doença, um para jogadores e outro para os terapeutas, mas os recursos são poucos e o projeto está longe de ter a infraestrutura necessária.

Enquanto o contexto ideal não se concretiza, trabalham com os pacientes nas frentes possíveis: reestrutura cognitiva, dessensibilização progressiva, reconstrução da auto-imagem, reformulação de padrões de relacionamento, terapia familiar e encaminhamento ao JA.
 

Recuperação
O Jogadores Anônimos surgiu nos Estados Unidos em 1957 e é o equivalente para apostadores dos famosos Alcoólicos Anônimos, Neuróticos Anônimos e outros. Estão presentes em 30 países, inclusive naqueles cuja orientação religiosa proíbe o jogo. A exemplo das organizações em que se inspirou, o JA oferece salas em que os viciados formam círculos e contam histórias. Os 12 passos do AA também foram adaptados para 12 passos do JA.

Uma entidade-irmã se destina aos amigos e familiares dos apostadores patológicos. É o Jog-anon, que funciona em salas independentes, mas nos mesmos lugares e seguindo um roteiro parecido de troca de experiências e etapas de recuperação em 12 partes.

Além de apoiar emocionalmente seus membros, o Jog-anon também corrige comportamentos prejudiciais involuntários. Muitas vezes, na tentativa de ajudar, o parente ou amigo acaba agravando a dependência. Comentários bem-intencionados, porém equivocados, incluem: “Está endividado? Ué, pára de jogar!”, “Ora, é só jogar menos!” ou, ainda pior, “Ah, joga mesmo, você merece”. Desorientado por esses tipos de conselho, o jogador rapidamente alcança o fundo do poço, diz o Dr. Hermano. “O jogador contrai uma dívida dupla, financeira e moral: joga de maneira mais desesperada e alcança a exaustão nos dois aspectos”.

Quando DT, uma industrial de 48 anos, conheceu o marido, EJ, sabia que ele tinha perdido uma fortuna no jogo. “Mas não sabia que isso é uma doença”, conta. “Como ele já tinha se recuperado financeiramente e já fazia três anos que ele estava sem jogar, pra mim, e na verdade pra ele também, estava tudo sob controle”. Após uma recaída abrupta e o habitual turbilhão que atinge os casais em situações assim, DT procurou o Jog-anon. “Comecei a frequentar o grupo de familiares do Itaim, onde carinhosamente fui recebida e aprendi que não sou responsável pela doença dele e que, se quiser ajudar na recuperação, o melhor é ficar bem. Aí descobri o quanto estava mal. Hoje sei o quanto foi importante a minha ida para aquela sala.”

Quando EJ decidiu conhecer o JA, sua esposa voltou a ter esperanças. “Fizemos uma reunião com os meus filhos e com os filhos dele contando tudo. Ele contou pra mãe, para o sócio na época, pedindo para não ter facilidade de contato com dinheiro. Desde o dia que ele ingressou, entrou em recuperação e abstinência.”
 


PARA SABER MAIS


www.jogadoresanonimos.com


www.revistaanonimos.com.br


Associação Nacional do Jogo Patológico: www.anjoti.org.br.
Email de contato: atendimento@anjoti.org.br

Ambulatório do Jogo Compulsivo do Hospital das Clínicas: (11) 3069-7805

Dr. Hermano Tavares, psiquiatra especializado em jogo patológico: 
jogadoresanonimossaopaulo@gmail.com

KARLA LIMA
Publicada em: 27/11/2009
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