TAMANHO DO TEXTO AA
Saúde / Publicada em: 26/05/2009
Os perigos da humanização de animais
Tratar os animais de estimação como seres humanos pode trazer graves consequências

Roupas e coleiras de grife, SPA, tratamentos estéticos, massagem, ofurô. A princípio, apenas mimos para os animais de estimação. E tanto cuidado tem um preço: isso pode prejudicar os animais.

Tratar os animais como seres humanos pode trazer problemas e prejuízos psicológicos tanto para os donos quanto para seus bichinhos de estimação, de acordo com o médico veterinário Luiz Fernando Sabadine. “Quando ocorre a humanização dos animais de companhia, eles perdem a sua identidade e passam a sofrer das mesmas coisas que os humanos sofrem”, afirma.

O excesso de atenção é frequentemente tido como negativo. Muita gente, principalmente aposentados, pessoas solteiras ou casais sem filhos, tratam os animais como crianças. É o caso de Ana Cláudia Moreira, 37 anos, secretária. Casada há seis anos, Ana possui dois cães da raça Yorkshire. “Antes deles, até queria ter filhos. Mas desde que comprei meus cãezinhos, não penso mais. Eles me completam”, diz.

Antes de se mudarem para a atual residência, ela e o marido viviam numa casa com três quartos, sendo um especialmente decorado para os cachorros. A nova moradia foi reformada especialmente para eles. “Colocamos pisos rústicos na casa inteira, para evitar escorregões”, justifica Ana.

Apesar de enfrentar preconceito de algumas pessoas, devido aos cuidados excessivos que tem com os animais, Ana Cláudia não vê exageros. “Fiz até uma tatuagem nas costas com o nome deles, e se pudesse, faria muito mais”, completa.

Para a zootecnista Mariana Andrade, uma das coordenadoras do projeto “300 anjos, 300 corações”, que alimenta e cuida dos animais de um abrigo em São Paulo, não há mal nenhum no amor que os donos sentem pelos animais, porém, ela repudia os exageros. “Não sou contra o amor que um ser humano pode sentir por um animal, mas acho um exagero a ostentação”, diz.

Segundo a Associação de Produtos e Prestadores de Serviços ao Animal (Assofauna), o mercado de pet shops cresce cerca de 17% ao ano e fatura R$ 3 bilhões. No Brasil existem aproximadamente 25 milhões de cães, 11 milhões de gatos, 4 milhões de pássaros e 500 mil aquários. De olho nesse mercado, a pet shop de luxo Au Pet Store, em São Paulo, oferece serviços como academia e centro estético para animais. Segundo Alcides Diniz, empresário da loja, os gastos de cada cliente variam. “Um cliente gasta em média R$ 100 por animal, mas já vi gente gastar R$ 3 mil”, diz. Já no Cãotry Club, hotel especializado em cuidar de cachorros, há macas para massagem, piscina aquecida, esteira aquática e até mesmo SPA para emagrecimento dos bichos de estimação.

Com inúmeras opções para cuidar dos animais, eles podem começar a apresentar alteração comportamental. “Percebendo o exagero de cuidados, o animal começa a se comportar como uma criança: mimando demais, você perde o controle”, diz o veterinário Luiz Fernando Sabadine. Agressividade, hiperatividade, comportamento anti-social. Estes são alguns sintomas dos animais “mimados”. Na maioria das vezes, as coisas consideradas erradas são feitas pelo animal na tentativa de chamar a atenção. “Até levar uma bronca é visto como forma de ser lembrado”, considera.

O tratamento para curar desvios comportamentais provocados pelo mimo exagerado consiste basicamente na procura de um profissional especializado, como um zootecnista, e principalmente na mudança de atitude do proprietário em relação ao animal. O médico ressalta que a correção deve ser feita no momento da “travessura”: se feita tardiamente, pode até mesmo ter o efeito contrário, pois o animal não se lembrará por qual motivo está tomando a bronca. “Precisamos principalmente do apoio dos donos. Com a humanização, ele pode acabar transferindo problemas e traumas para o animal”, finaliza Sabadine.

KATHIA MAYARA DE OLIVEIRA
Publicada em: 26/05/2009
Indique ao amigo
Modo de impressão
+ NESTA EDIÇÃO

© Copyright 2011 - Momento Online. Todos os direitos reservados.